Desde tempos imemoriais, crenças, práticas e experiências espirituais têm sido um dos componentes mais prevalentes e influentes da maioria das sociedades. Profissionais de saúde, pesquisadores e a população em geral têm, cada vez mais, reconhecido a importância da dimensão religiosa/espiritual para a saúde. O número de estudos que investigam a relação entre espiritualidade e saúde tem crescido exponencialmente. Contudo, existem duas importantes limitações nesse campo em relação ao Brasil e outros países de língua portuguesa. Uma delas é que os estudos sobre espiritualidade e saúde realizados nesses países não são bem conhecidos no exterior. A segunda limitação é a ausência de uma revisão abrangente da literatura sobre espiritualidade e saúde, em português, que seja facilmente acessível a pesquisadores e clínicos de tais países.
Estudar cientificamente a espiritualidade é uma empreitada muito entusiasmante e perigosa.
Essa é uma área repleta de preconceitos, preconceitos a favor e contra a espiritualidade. A maioria das pessoas tem opiniões sobre o tema, mas habitualmente essas opiniões foram formadas sem uma análise aprofundada das evidências disponíveis. É fácil deslizar, por um lado, para um ceticismo intolerante e uma negação dogmática ou, por outro, para uma aceitação ingênua de afirmações pouco undamentadas. Não importa se possuímos crenças materialistas ou espirituais, atitudes religiosas ou anti-religiosas, necessitamos explorar a relação entre espiritualidade e saúde para aprimorar nosso conhecimento sobre o ser humano e nossas abordagens terapêuticas. Ao longo dessa empreitada desafiadora, seria
útil lembrar as palavras de Karl Popper, um dos filósofos mais importantes do século XX:
“Na busca da verdade, a melhor estratégia pode ser começar criticando as crenças que nos sejam mais caras (...) (p. 6).
Eu acredito que valeria a pena tentar aprender algo sobre o mundo, mesmo se nessa tentativa aprendermos apenas que não sabemos muito. Esse estado de ignorância aprendida pode ser útil em muitos de nossos problemas. Pode servir para que todos nos lembremos que, mesmo diferindo amplamente nas várias pequenas coisas que sabemos, em nossa infinita ignorância, somos todos iguais” (p. 29).*
Eu acredito que valeria a pena tentar aprender algo sobre o mundo, mesmo se nessa tentativa aprendermos apenas que não sabemos muito. Esse estado de ignorância aprendida pode ser útil em muitos de nossos problemas. Pode servir para que todos nos lembremos que, mesmo diferindo amplamente nas várias pequenas coisas que sabemos, em nossa infinita ignorância, somos todos iguais” (p. 29).*
* Popper, K.R. Conjectures and refutations – The growth of scientific knowledge. London, Routledge, 1995.
Fonte: Revista de Psiquiatria da USP - Spirituality and health: past and future of a controversial and challenging relationship
